Ricardo Amaral vai reabrir o Hippo, boate que fez sucesso no Rio durante 26 anos

Ricardo Amaral vai reabrir o Hippo, boate que fez sucesso no Rio durante 26 anos

RIO – Durante décadas, Ricardo Amaral foi chamado de “Rei da Noite”. Injustamente, por um único motivo: a palavra glutão deveria estar incorporada ao título. Porque Ricardo é e sempre foi dado aos deleites da mesa. Ele atravessa a cidade de ponta a ponta (do Leblon a Ramos), viaja pelo Brasil e corre o mundo para comer. E mais: também escreve livros sobre o assunto. No ano passado, junto com o amigo e companheiro de mesa Boni, outro gastromaníaco inveterado, lançou o guia “Boni &Amaral, o Rio é uma festa!”, com endereços de restaurantes, botecos, bares e afins. Em 2013, a dupla já tinha lançado um guia que apontava os cem melhores restaurantes do mundo. Bom de papo, contador de histórias nato, Ricardo resolveu, há um ano, criar a sua própria editora, a Rara Cultural. Este mês, lança “Histórias da gastronomia brasileira. Dos banquetes de Cururupeba ao Alex Atala”. O livro, que ele escreveu em parceria com o jornalista e editor de gastronomia Robert Halfoun, faz um passeio saboroso pela cozinha nacional, desde os tempos do tal Cururupeba, cacique dos tupinambás.

— Sempre tive na cabeça fazer um livro contando um pouco da história da gastronomia no Brasil. E é uma história que não é difícil de ser contada porque não é longa. A ideia é mostrar a origem do que comemos hoje no País de muito bom. Começamos com essa história e acabamos homenageando alguns chefs representativos — explica.

Agora, Ricardo, que já foi dono de academias, parque de diversões, boliche, tobogã e rinque de patinação (levanta a mão quem lembra do Roxy Roller, templo sagrado da patinação nos anos 80, na Lagoa), está prestes a ressuscitar (no final de outubro), depois de um intervalo de 15 anos, o legendário clube privé Hippopotamus, em frente à Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, quase no mesmo endereço do antigo. Serão 660 m², distribuídos por três andares, com direito a lounge, restaurante, bar de vinho com 750 garrafas do mundo todo, e uma área de fumantes no terceiro andar com direito à tabacaria.

VINHO PARA SÓCIOS DO HIPPO

Ricardo fala, cheio de entusiasmo, dos pratos que fizeram sucesso por lá sob o comando do chef Claude Lapeyre, que voltará a comandar a cozinha da casa. Desta vez, ao lado do seu filho, o também chef Ricardo Lapeyre. O menu será uma combinação de clássicos do Hippo com criações contemporâneas.

— Encontro pessoas que falam com saudade do camarão Café de Paris, feito em cima de um arroz selvagem e que tem uma musse de ervas por cima; do magret de canard com maracujá; e do filé Hippopotamus, cortado à la broche e que tem um molho secreto do Claude. No lounge e no terraço, terão tapas. No passado, era muito difícil comprar determinadas coisas. Tudo era complicado. Agora, dá para brincar um pouco mais com a variedade de ingredientes — diz Ricardo, que terá como sócios o seu filho mais velho, Rick Amaral, e o empresário Omar Catito Peres, atual dono do Bar Lagoa e sócio da Boulangerie Guerin.

Ricardo diz que a volta do Hippo tem a ver com “Vaudeville”, livro que conta suas memórias, lançado em 2010.

— Muita gente, incluindo pessoas bem mais novas, que não viveram aquela época, me pediu esse retorno.

Ele, que completou 75 anos em março, brinca que não vai inaugurar o novo Hippopotamus com uma festa. Vai, simplesmente, abrir. Tudo por medo da avalanche de pedidos que, seguramente, vão surgir. Mas avisa que o clube continuará sendo um privilégio apenas para associados e seus convidados. A lista inicial — elaborada pelo próprio Ricardo, por sua mulher, Gisela, por Rick e por Catito — terá cerca de 500 nomes. Esses podem convidar outros, no processo conhecido como “member get member”.

—Ainda estamos estudando a taxa de adesão, mas, teoricamente, será R$ 5 mil. Tem gente achando caro, bom, justo. É interessante dizer que o sócio terá um serviço de concierge, além de benefícios, que vão de descontos em hotéis a quatro garrafas de vinho por mês.

Ricardo Amaral, no centro, com Ricardo Lapeyre, a esquerda, e Claude – Leo Martins / Agência O Globo

TUDO MENOS FEIJÃO

Ricardo Amaral come de um tudo, como todo bom glutão. Não consegue, é claro, citar prato predileto. Só não é mesmo chegado a feijão, que diz nunca ter provado em toda a sua vida. Fica enjoado só de sentir o cheiro. Ironia, né? Porque a Feijoada do Amaral fez história, transformando-se em um marco do carnaval carioca.

Quando se fala em gastronomia, Ricardo mostra, em algumas horas de conversa, que é mesmo aplicado no assunto. Cita nomes de chefs e de estabelecimentos. Conhece dos botecos consolidados aos que são novidade, passando por restaurantes com estrelas Michelin. Ele vai, de verdade, a qualquer lugar: basta um amigo dizer que naquele restaurante ou bar provará algo que vale muito a pena.

Ricardo tece loas ao Bar do Momo, na Tijuca. Diz que foi lá que provou o melhor petisco de boteco que já comeu até hoje: o Farol de Milha. E aí descreve o prato, soltando um assovio no final:

— É uma porção de carne assada se desintegrando com queijo meia cura e um ovo caipira com gema mole bem em cima. Vem com uma cestinha de torradas de alho.

Ainda no quesito botecos, ele cita o alho confitado da Adega Pérola, na Siqueira Campos; os petiscos do Bar da Frente, na Praça da Bandeira; as sardinhas do Bar da Portuguesa, em Ramos; os galetinhos do Sat’s; a costela no bafo do Cachambeer, no Cachambi, além do clássico Bar Lagoa. Partindo para Búzios, Ricardo se derrete em elogios ao chef argentino Gustavo Rinkevich, que, de dia, cuida do Rocka, na Praia Brava. À noite, o expediente dele é no 74 Restaurant, do Hotel Casas Brancas.

Fora do Brasil, Ricardo conta que voltou maravilhado com as descobertas que fez no Peru, há cinco meses. Uma delas foi o Osso Carnicería & Salumeria, onde o chef Renzo Garibaldi serve apenas carnes maturadas.

— O Renzo, que só trabalha de boné, é considerado o melhor assador do mundo. Ele chega a maturar uma carne por 400 dias. Outro restaurante imperdível por lá é o Maido, do chef Mitsuharu Tsumura, que serve uma comida que une a diversidade dos alimentos peruanos com a técnica e a cultura da gastronomia japonesa — diz ele, mostrando fotos no celular em que aparece à mesa com Boni.

Em Nova York, ele fala do Chef’s Table at Brooklyn Fare, avisando que conseguir reserva não é nada fácil. São necessárias seis semanas de antecedência, pelo menos. Comida? “Cosmopolita e deliciosa. Uma experiência”.

“DIAS FERREIRA” DA BARRA

Ricardo não está às voltas apenas com os livros, com as aventuras gastronômicas e com a reabertura do Hippopotamus. Ele também está envolvido até o último fio de sua cabeleira grisalha com um espaço que ele não se cansa de chamar de a “Dias Ferreira da Barra”, numa referência à rua do Leblon que reúne muitos dos restaurantes mais charmosos da cidade. Na Barra, mais precisamente na Avenida das Américas 8.585, Ricardo é o curador do Vogue Gourmet, uma espécie de shopping gastronômico, que integra o Vogue Square Life Experience, um complexo que inclui salas comerciais, academia, clube de tênis, lojas, além de um hotel de luxo. A inauguração será mês que vem.

Craque em gastronomia e diversão, Ricardo foi incumbido de escolher a dedo os restaurantes e botecos convidados para integrar o projeto. No quesito arquitetura e decoração, ele passou a bola. Convocou as empresárias Patricia Mayer e Patricia Quentel — dupla à frente do Casa Cor Rio — para recrutarem os melhores arquitetos da cidade.

Por lá, estarão o Bistrô Lapeyre, do chef Ricardo Lapeyre; o BottoBar, casa do mestre cervejeiro Leonardo Botto, com chopes europeus e brasileiros e comida germânica; o Filho da Mãe, cria do niteroiense Gruta de Santo Antonio, já que será o filho da dona Henriqueta, o Alexandre Henriques, que comandará o lugar. As casas Boteco do Amaral e GattoPardo Trattoria são mais uma marca do retorno de Ricardo Amaral ao cenário gastronômico da cidade. O cardápio do Boteco leva a assinatura de Antonio Laffargue, mais conhecido como Toninho, do Bar do Momo, na Tijuca, e Bruno Magalhães, do Botero, que fica no Mercadinho São José. Mais: Amaral também terá outro clube privé no espaço, o Le Club, que será comandado pela chef Heaven Delhaye. A mixologista Jessica Sanchez ficará no balcão do bar Cocktail. De São Paulo, virá o conceituado chef japonês Shin Koike, que comandará um restaurante com seu nome e um bar de saquês.

Haverá ainda Deli Delícia e o Café Casa Cor, além de uma escola de gastronomia, a Prosa na Cozinha, da chef Manu Zappa. Como os charutos não poderiam f altar, Ricardo recrutou o ator Thiago Lacerda para comandar o novo clube de charutos da Barra, o Candice.

O Vogue Square Life Experience, que terá nada menos que 33 mil m², inclui um hotel de luxo com 222 suítes, 368 salas comerciais, um mall com mais de 100 lojas, incluindo as operações do Vogue Gourmet, centro de convenções para eventos com capacidade para até mil pessoas sentadas, uma academia BodyTech de 1.600 m² e uma clínica de tênis com oito quadras.