Heaven Delhaye revela sua personalidade forte à frente da cozinha do Le Club

 

A CHEF posa no salão do Le Club, o clube privê de Ricardo Amaral. - Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo
A CHEF posa no salão do Le Club, o clube privê de Ricardo Amaral. – Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo

 

Junte um rosto angelical, com uma pele bem cuidada e um sotaque gringo. Acrescente um par de brincos Chanel. Achou a descrição sem sal? Coloque, então, uma tatuagem de pimentas atrás da orelha, uma calça jeans bem rasgada e botas estilo militar. Tão surpreendente quanto uma receita agridoce, a chef Heaven Delhaye mostra que, por trás daquele dólmã e da feição delicada, há uma mulher de personalidade forte. É ela quem está à frente da cozinha do Le Club, o dining club que Ricardo Amaral inaugurou recentemente no Vogue Square, na Barra da Tijuca.

— Cozinha não é lugar para ser sentimental. É claro que não se pode ofender, mas falar alto é necessário. Certa vez, quase levei uma panelada na cabeça. Foi na França. Eu era introvertida, o chef fez uma pergunta, não me ouviu responder e atirou o que ele tinha na mão na minha direção. Sorte que eu desviei. Mas aprendi que precisava me posicionar — afirma ela, que serve até 200 couverts por noite, num restaurante em que os pedidos podem ser feitos até as 4h.

Apelidada de “musa da gastronomia”, Heaven tem até fan page no Instagram. Ela, que está de volta ao comando de uma cozinha após alguns anos atuando como apresentadora de programas de culinária na RedeTV!, não renega o título. Nem poderia. No currículo, além de passagens pelo estrelado Eleven, de Lisboa, a chef carrega também trabalhos como modelo para campanhas de cerveja e de lingerie. Mas reconhece que, muitas vezes, o bordão “beleza não põe mesa” parece feito para ela.

— No início, todo mundo acha que não sei o que estou fazendo. Durante o processo de seleção da equipe do Le Club, vários candidatos iam falar com meu sous-chef achando que ele é quem era o responsável. Acontece… — diz ela, que desistiu da vida de modelo por não gostar de se “enquadrar na visão dos outros”: — Prefiro estar no comando.

BATIZADA DE MARIA DO CÉU

Filha de uma chef francesa e de um enólogo português, Heaven foi criada em meio às panelas. Nascida em Petrópolis, ela se mudou para Florianópolis aos 11 anos, quando os pais abriram o bistrô Le Bon Vivan:

— Meus pais vieram para o Brasil participar de um trabalho comunitário cristão.

Vem desses tempos o sotaque enigmático. No grupo, só se falava em inglês; com a mãe, ela conversava em francês; com o pai, aprendeu o português — de Portugal. E, apesar de todos da família (com exceção da avó portuguesa) a chamarem de Heaven Marie, na certidão de nascimento, por muito tempo, constava Maria do Céu.

— Consegui mudar isso só recentemente. Na época, o cartório não permitiu que eu fosse registrada como Heaven — revela ela, que, como os outros seis irmãos, ajudava os pais no negócio da família.

Hoje, os papéis se inverteram, e é Heaven quem chefia a mãe, Marie Delhaye, sua fiel escudeira. Do pai, ela herdou o gosto pelos vinhos:

— É a única coisa que não pode faltar em casa. Até quando faço dieta, só não corto o vinho e o champanhe, que, como dizia Napoleão, é merecido nas vitórias e necessário nas derrotas.

LADO ‘OGRA’

A referência a Napoleão não é apenas uma frase feita. Na bolsa Vuitton masculina, sua companheira de ponte aérea, ela costuma carregar livros históricos, especialmente sobre a Segunda Guerra Mundial, e narrativas de espionagem.

Luta é com ela mesma. Namorada de Rodrigo Minotauro, o campeão do UFC, Heaven sempre assistia a disputas com os irmãos, que faziam jiu-jítsu, e com o pai, que já praticou judô.

Os dois se conheceram num jantar em Ibiza, quando ele — que já participou do reality “Super Chef Celebridades”, do programa “Mais Você” —, pediu para cumprimentar a cozinheira ao fim da noite. O romance começou meses depois:

— Ele me mostrou um lado sensível, carinhoso. Digo que parece um urso gigante.

E se o enredo parecia encaminhar para a versão moderna de “A Bela e a Fera”, Heaven ressalva que assume, muitas vezes, a porção “ogra” do casal:

— Adoro cabeça de peixe, de porco, pé de porco, língua, rabada, mocotó. Prefiro comer pé de galinha do que picanha.

Aos 32 anos e segura de si, ela garante que dispensa os pratos afrodisíacos:

— A sedução está no cérebro. Se a pessoa acredita, funciona. Até com misto-quente.

TRUQUES LÚDICOS

Convidada pelo próprio Ricardo Amaral a assumir a cozinha do Le Club, Heaven resolveu privilegiar a culinária contemporânea na casa. No menu eclético, que tem uma versão especial de meia-noite às 4h, destaque para o Beijupirá Brasil (peixe branco grelhado sobre purê de batata-barôa e leite de coco, palmito pupunha e crocante de ervas e castanhas do Pará) e para o Steak Minotauro (prime rib de 500g grelhado, barquinha de tutano assado crocante, salada de minirrúcula orgânica e batatas rústicas), uma evidente homenagem ao namorado. Mas ali o campeão de pedidos é o Hambúrguer À Moda da Casa (que leva crocante de queijo minas padrão e cebolas caramelizadas e é servido com batata frita ou rústica), perfeito para quem tem apetite de gladiador:

— Quero agradar a gregos e a troianos, e ter um pouco de tudo no menu, que é uma mistura do que eu acho gostoso de vários estilos. Tenho essa liberdade e sou muito feliz por isso — afirma Heaven, que tem como grandes referências, além da mãe, os chefs-apresentadores Gordon Ramsay e Raymond Blanc: — Gosto do Ramsay pela competência de ter tantos restaurantes de qualidade ao redor do mundo, um verdadeiro chef executivo. E do Raymond Blanc pela linda maneira como ele trata a culinária tradicional, com uma pitada de modernidade.

Para atiçar o paladar da clientela, a chef conta não com as técnicas moleculares de Ferrán Adriá, também ídolo para ela, mas sim com outros truques lúdicos, como as minioliveiras feitas especialmente para abrigar as azeitonas do couvert.

— Sou louca por azeitonas. Na infância, me chamavam de Miss Olive — conta Heaven.

Nos planos da chef estão ainda preparar brincadeiras para os clientes do Le Club, como decorar uma sobremesa com a pergunta “me come?” Uma brincadeira meio inocente, meio safadinha digna da cozinheira e sex symbol inglesa Nigella Lawson.

— A vida deve ser picante. Não gosto de tédio — diz Heaven, que, afinal, tem duas pimentas tatuadas atrás da orelha.